Marcos Fernanades Alves
Vitória em BeijingHá 23 anos sem andar, o cavaleiro Marcos Fernandes Alves, o Joca, é uma prova de que limites existem para serem ultrapassados. Nas competições de Adestramento da Paraolimpíada de Beijing, ele conquistou as duas primeiras medalhas do Hipismo Paraolímpico brasileiro: foi bronze nas categorias Individual e Freestyle
Bons resultados acompanham sua trajetória desde que voltou ao hipismo, há cinco anos. Além da dupla vitória na China, o cavaleiro foi duas vezes campeão nos Jogos Pan-Americanos em 2003 e, no ano, passado obteve 4º lugar no Campeonato Mundial de Saltos, na Inglaterra. Ao que tudo indica, não existe fórmula mágica para o sucesso: Joca treina ao que tudo indica seis dias por semana, o que representa 312 dias por ano de muita dedicação.
Você tomou a decisão de voltar ao hipismo 17 anos depois de ter perdido o movimento das pernas em 1986. Que motivos o fizeram retornar às competições?
O motivo principal foi a vontade de tentar estar lá em cima de novo. Uma ex-aluna de Salto que trabalhava nessa área de Adestramento Paraolímpico começou a me chamar e muitas vezes insistiu para que eu voltasse. Eu neguei por um bom tempo, até que ela começou a falar na Paraolimpíada em Atenas e então decidi tentar.
Você perdeu o movimento das pernas aos 25 anos devido a uma queda. Em que circunstância isso ocorreu?
Estava treinando um cavalo, ele quebrou a pata e saiu rodando comigo. No momento em que paramos de rodar, eu vi, ou melhor, percebi que havia algo errado: eu não sentia mais as minhas pernas. A conseqüência foi que por alguns anos deixei de fazer o que mais gostava, mas como tudo tem um propósito em nossas vidas...aí está o porquê que tanto perguntamos.
O que mais o impressionou nas Olimpíadas de Beijing?
O que mais me impressionou foi a organização: tudo acontecia na hora marcada e as provas tinham excelente público. No último dia de competição havia mais de 14mil expectadores assistindo às finais. Em Atenas 2004, você foi o único representante brasileiro. Este ano o Brasil enviou a Beijing uma equipe completa.
Como você avalia a evolução do adestramento no Brasil?
O trabalho está sendo bem feito e as colaborações estão aparecendo. Um exemplo é a bolsa atleta, que tem ajudado muitos atletas através de uma verba mensal. Também tenho que ressaltar a importância do Comitê Paraolímpico, que não mediu esforços para que chegássemos à Beijing.
Há 4 anos, você teve a sua primeira participação em Olimpíada. É possível comparar as duas olimpíadas?
Em Atenas tudo foi muito rápido: havia só seis meses que eu tinha voltado a montar e eu sabia que estava indo para ser apenas mais um competidor. Fui para Hong Kong com outras expectativas, já que ano passado obtive boas colocações no Campeonato Mundial de Saltos na Inglaterra: 4º lugar no adestramento individual e 5º no livre. E olha que quando esse Mundial começou, fazia só dois dias que eu estava montando o Luthenay. Estava tranqüilo ao ir para Beijing, pois sabia que tinha um bom cavalo e que a conquista de um título dependeria de mim. Quando cheguei lá, aconteceram algumas coisas que pareciam querer atrapalhar meu desempelho. Uma delas foi o excesso de saúde do Luthernay. O treinador achava que o cavalo era bome seria desnecessário "gastá-lo". Assim, na manhã em que ia fazer a prova de adaptação, fui montá-lo e ele saiu correndo e corcoveando comigo por uns 150m. Aí sim, eu fiquei com muito, muito medo.
Quais aspectos você considera importantes no treinamento paraequestre?
Acho importante que as pessoas que estão à frente do ensino procurem saber o que cada atleta com suas limitações pode ou não fazer e que os atletas estabeleçam metas, objetivos a serem alcançados.
Há quanto tempo você treina com o cavalo Luthenay de Vernay? Qual a idade e raça do animal?
O Luthenay é um Sela Francês de nove anos que ganhei ano passado de presente do cavaleiro Doda. Além de me dar o cavalo, Doda ficou com o cavalo até agora e o está mantendo na França. Dentro de pouco tempo, Luthernay será mandado para Brasília, onde moro.
A quem você dedica sua vitória e o que essas medalhas olímpicas representam para você?
Primeiramente ao meu bom Deus, aos meus pais que moram comigo e sempre me incentivaram e com certeza ao Álvaro Afonso, o Doda. Esse cavaleiro tem coração e fala sério. O presente dele foi fundamental para minhas conquistas. Para mim as medalhas representam uma barreira superada e limites quebrados.





