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Rogério Clementino

Entrevista Edição 45 | Comentários

Texto: Rute Araújo | Foto: Raphael Macek

Superação

Primeiro afro-descendente numa equipe de hipismo brasileira, o sul-mato-grossense de 30 anos construiu uma bem-sucedida carreira nas pistas de Adestramento.

 

Como foi sua trajetótia no esporte?
Minha história é totalmente diferente da maioria dos cavaleiros clássicos. Sou do interior do Mato Grosso do Sul, nasci e fui criado em fazenda e na adolescência cheguei a montar boi em Rodeios. Mas aí conheci o Leandro Silva (cavaleiro olímpico de Adestramento) num jogo de futebol de campinho e ele me convidou para trabalhar em haras em São Paulo. Comecei no Villa do Retiro, do Eduardo Fischer, e em 2002 fui para a Coudelaria Ilha Verde, onde cuidava da limpeza das baias. Mas gostava mesmo era de montar, e então o Zé Victor me deixou montar alguns dos seus cavalos Lusitanos dele e a participar de provas de Equitação de Trabalho.
Quando ele promoveu a primeira prova desta modalidade no haras, durante o Leilão Luso-Brasileiro, em 2003, eu fui o campeão montando o Nilo VO. Dali pra frente, ele me deu todas as condições e infra-estrutura para me dedicar exclusivamente a equitação. Em 2005 fiz minha estreia no Adestramento durante o FEI World Challenge montando o Nilo VO. Como já tínhamos experiência nas provas de Ensino da Equitação de Trabalho fui logo competindo na São Jorge (nível técnico elevado). O juiz era o Eric Lette (cavaleiro e treinador olímpico e da equipe brasileira nos Jogos Pan-americanos do Rio/2007 e de Guadalajara/2011) que elogiou minha apresentação e comentou com o Zé Victor. Ele veio falar comigo e dizer que se eu me identificasse com o esporte, ele investiria em mim. Não tive dúvida. Com o Nilo fui Campeão Brasileiro Sênior Top em 2006, conquistei a medalha de bronze por equipe no Pan do Rio em 2007 e fui para as Olimpíadas de Pequim em 2008. Até hoje o Nilo VO continua garantindo títulos para a Coudelaria, agora com o Antonio Victor, filho do Victor e meu aluno.

Como avalia sua performance durante o Pan de Guadalajara?
Me preparei muito para chegar lá e foi um sonho realizado estar na disputa por medalha individual junto com o Mauro (Mauro Pereira Jr.). Aliás, já fazia 28 anos que o Brasil não participava da disputa.

Como avalia o desempenho da equipe brasileira?
Muito bom. Claro que nosso objetivo era conquistar uma medalha e com isto garantir vaga para a Olimpíada de Londres, o que não ocorreu, mas chegamos em Guadalajara com o time mais preparado tecnicamente até hoje para uma competição como esta. A nossa preparação, aliás, começou lá atrás, antes do Pan do Rio com participação em clínicas com alguns dos maiores nomes internacionais da modalidade, avaliação de juízes de nível “O” (o mais elevado) da Federação Equestre Internacional (FEI), o que tem possibilitado que a gente evolua a cada dia. Também estamos com animais melhores e participando de um número maior de CDI3* (Concurso de Dressage Internacional). O processo seletivo resultou neste time onde os conjuntos chegaram no Pan produzindo médias acima de 68%. Fazendo uma comparação com o Pan do Rio, onde as médias eram de 64%, foi uma evolução considerável, mesmo porque todos estávamos com outras montarias.

Quais são seus ídolos no esporte equestre?
Tenho admiração, respeito e gratidão pelo Leandro Silva, que foi quem me trouxe para trabalhar com haras, me deu as primeiras aulas de equitação e foi meu parceiro na Olimpíada de Pequim e no Pan de Guadalajara. Agora, dos ídolos internacionais sou fã da Isabel Werth (amazona alemã, dona de oito medalhas olímpicas). Ela monta com a alma, com o coração, e transmite isto. Tive o privilégio de competir com ela em 2010 em um CDI em Cannes, na França, e nos Jogos Equestres Mundiais de Kentucky (EUA), e aqui no Brasil, onde ela esteve pela primeira vez durante o Oi Athina Onassis Horse Show do ano passado, no Rio de Janeiro.

Em sua opinião, que características são necessárias para que um cavaleiro alcance o sucesso?
As características são determinação, foco, humildade, empenho, comprometimento e vontade de evoluir sempre. E é preciso também planejar, estabelecer alvos, sonhar e trabalhar para transformá-los em realidade.

Poderia comentar um pouco sobre seu cavalo, o Sargento do TOP?
O Sargento tem um coração enorme. Ele é pequenino, mas cheio de vontade. É um parceiro incrível, voluntarioso. Obediente aos comandos. Quem estreou com ele nas pistas de Adestramento foi o Luciano Pereira Alves que na época montava pela Top Agropecuária, responsável pela criação do animal. Antes de mostrar sua aptidão esportiva, o Sargento do TOP foi eleito Campeão dos Campeões, o mais cobiçado prêmio de morfologia da Exposição Internacional do Cavalo Puro Sangue Lusitano.

Como avalia o desenvolvimento do esporte no Brasil?
O Adestramento vem evoluindo de forma consistente desde os anos 2000, especialmente pelas parcerias que foram estabelecidas entre entidades como a Associação do Puro Sangue Lusitano, Confederação Brasileira de Hipismo, Federação Paulista de Hipismo e criadores. Este trabalho conjunto para promoção do esporte tem levado a realização de um maior número de provas e também vem atraindo novos competidores. Tecnicamente os conjuntos também têm evoluído, e isto é resultado das clínicas com treinadores de renome internacional e a realização de CDI3* – Concurso de Dressage Internacional – que possibilitam a vinda de juízes de nível “O” para julgar e avaliar o desempenho dos conjuntos e nos orientar para evoluir ainda mais. O resultado disso tem sido a participação do Brasil em competições internacionais como Pan-americanos, Olimpíada, Jogos Equestres Mundiais. Outro resultado importante registrado no Adestramento é o surgimento de uma nova geração de atletas, formada principalmente por adolescentes e crianças.

Para você, qual a melhor parte do Adestramento? Por que?
O Freestyle, porque é onde o cavaleiro pode explorar os pontos fortes do animal e mostrar o que o conjunto tem de diferencial em relação aos outros competidores.

Possui algum movimento preferido durante o Freestyle?
A passage, o piaffe e a pirueta. Eles são os mais difíceis, mas também os mais elegantes. Estes movimentos revelam o entrosamento que existe entre cavaleiro e cavalo.

Gostaria de deixar alguma mensagem para as amazonas e atletas brasileiros?
Não importa qual esporte você pratique, dê o seu melhor. Se perder, não desista. E aprenda que perseverar, acreditar e trabalhar pode te levar a realização dos seus sonhos. Sonhar nos dá força para levantar todos os dias. Então, jamais desista deles. E aprenda também a ser grato. Primeiro a Deus e depois as pessoas que te ajudam e que acreditam em você.

 


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